O abrigo infantil de Boa Vista, Condomínio Pedra Pintada, organizou festa inspirada no clássico O Pequeno Príncipe para seus onze pequenos residentes nessa sexta-feira, 16. A comemoração foi em alusão ao Dia das Crianças e arrecadou mais de 50 brinquedos. Na ocasião, foi anunciada colocação de novo método de tratamento psicológico na capital.
A obra de Antoine Saint-Exupéry foi escolhida como tema por representar com excelência o que as crianças do condomínio têm aprendido durante momentos de leitura: entender as próprias existências. A psicóloga do abrigo, Ginara Coelho, notou que esse tipo de literatura ajuda os pequenos a superar medos e elevar os sonhos.
“Eles passam a compreender o que viveram e vivem de modo a traçar novas expectativas para o futuro”, explicou a profissional, que atua com crianças há 6 anos. O método o será fortalecido com a implantação do programa Fazendo Minha História, que prevê construção de livros pelos próprios pequenos.
O projeto é criação de uma instituição paulistana e tem sido aplicado em todo país para tratar jovens. Os livros expressam seus sentimentos mais delicados – algo que dificilmente conseguem conversar sobre. Para as crianças que não sabem escrever, há a possibilidade de fazer outros tipos de expressões artísticas no material, desde que mantenham a ideia de contar suas histórias.
O secretário municipal de Gestão Social adjunto, Moacir Collini, contou que a vinda desse projeto piloto, que está sendo implantado gradativamente no município, barrará o surgimento de rupturas nas vidas dos pequenos.
“É renovador. Em 2013 tínhamos 50 crianças acolhidas aqui. Com a capacitação da equipe, esse número caiu para onze. Também fornecemos uma estrutura física e materiais novos para o condomínio, que permitem trabalhar esse projeto. Ele vai fazer essas crianças entenderem suas estadias no abrigo sem que rompam com o que viveram antes de vir para cá”, percebeu.
Expressar-se com a arte: A presença do Pequeno Príncipe, ainda que feita por meio de bonecos e objetos na festa, inspirou W.*, de 11 anos, a dançar hip-hop na frente de todos os convidados – algo que ele aprendeu em três dias, apenas observado. O garoto surpreendeu a todos com seu equilíbrio e passos ora largos, ora curtos, sempre rápidos.
Assim como Príncipe não tem medo de dizer o que pensa, usando-se de simples palavras para expressar o que muitos adultos não conseguem, W. demostrou confiança e coragem para lidar com desafios através de seus passos. Características que ele desenvolveu dentro do abrigo. Antes, vivia tormentos com uma parente usuária de drogas.
Há quase dois anos no condomínio, finalmente foram encontrados outros parentes para que ele trace novos caminhos. Viverá com irmãos, longe de tristezas. “Cheguei a desistir de esperar por esta hora, mas aqui aprendi a acreditar que tudo pode melhorar. Serão novos dias”, emocionou-se.
Expressões artísticas também contam histórias de amor. Foi o que se sentiu no rap do integrante do Crescer Henrique Falcão, de 18 anos. Já passou por envolvimento com ilícitos e frisou na letra de sua canção que só conseguiu superar tudo isso porque dona Linda – sua mãe – nunca deixou de acreditar nele.
“Eu já fui uma criança sem sonhos. Mas a arte renova nossa alma. Através dela, dá para a gente contar nossas dores, mas também agradecer e ter perspectivas novamente”, observou o rapaz, mais conhecido como “Giga” – apelido que recebeu da falecida avó.
A comemoração no Pedra Pintada ainda contou com a presença de entidades como Reciclagem, da Igreja Batista, e dos jovens do Ministério do Louvor, da Quadrangular. Eles cantaram e instrumentalizaram o ambiente com hinos de esperança e brincadeiras. “É graças à prefeitura e nossos parceiros que conseguimos confortar essas crianças num momento tão delicado de suas vidas”, disse a gerente do abrigo, Ivanilde Teixeira.
Fazendo Minha História: Atualmente o programa encontra-se em frase inicial no município, na qual foca-se no incentivo à leitura. Enquanto isso, os assistentes sociais e demais envolvidos no tratamento das crianças passam por capacitação. Quando todos estiverem familiarizados com a leitura para tratamentos, os materiais para os pequenos fazerem seus próprios livros serão implantados na capital.
“Esta primeira parte é longa porque queremos que todos estejam 100% capacitados para fazermos este trabalho inovador. Então, logo no 1º semestre de 2016, esses materiais das crianças chegarão e teremos uma nova ferramenta para ajudá-las a superar problemas”, finalizou a psicóloga Ginara.